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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O bode Islamita



Viveu nos confins do mundo em uma época remota, um  bode – muito provavelmente um dos   primeiros , que queria muito deixar o cavanhaque para então  conhecer as terras santas onde Jesus havia nascido; todos os dias, olhava no espelho e ia acompanhando os pelinhos que apareciam no queixo. Logo em seguida  rezava o pai nosso e beijava a imagem de Cristo.
E assim foi durante meses e meses seguidos, mas nada de o cavanhaque aparecer e nada de conhecer a terra santa também; Então o bode cujo nome era Espaldonio, cansado de tanto esperar desistiu do cavanhaque e mudou de religião, adquiriu o Alcorão e virou o primeiro bode Islamita de que se tem conhecimento na história.
Diz a lenda que foi assassinado quando dava seus bodejos no muro das lamentações.
Desde então todos os bodes já nascem com barbicha!!

                                                                           Dez.2013

domingo, 1 de setembro de 2013

Reencontro



Mar tranqüilo, sereno,
Alguns anjos, em silencio
Emanavam vibrações
Aos que ficaram na terra.

Uma luz violeta, suave
Pairava no ar, etéreo,
Dando boas vindas
Aos que haviam partido.

Alguém chorava, no momento
Em que uma mão invisível
Tocava seus  ombros cansados.
Um ritual de amor e perdão.

Mar tranqüilo,  sereno,
Sempre na mesma direção.
Um som vibrava, fraco
Ecoando por todo o vale.

As mãos gélidas, imóveis
Cujo sangue, congelara,
Abraçavam o peito frio, nu.
Um acorde de despedida.

Era principio de outono
Meigo, triste, vazio.
Crianças brindavam o dia,
Como sendo o último.

                                                         Jan.2013

Fragmentos 5







Rios, cascatas, horizontes
Se foram para sempre, sempre.
Não basta reter o momento,
Quando só restam pequenos fragmentos.

A memória busca a chama
Que se acendeu noutro dia – A terra
Gira enfim, são só sinais,
Geometria, de vida e morte.

Frágeis são estas mãos,
Vento frio, manhã qualquer,
Estória de um conto de fadas
Onde o Rei nunca virá.

                                                  Fev.2013

sábado, 31 de agosto de 2013

Trevos




O meu amor transformou-se
Em cobras, florestas escuras
Nada nunca esteve bem –  Eu até pensei
Em lagostas, moinhos de trigo.

Eu até pensei que poderia
Caminhar como um fantasma,
Mas fantasmas somem de vista,
Enlouquecem-me.

Uma lua aparece no céu,
Tenho medo de luas, do pó
Receio nunca compreender
A vida e a morte.

A paz, será que a vi um dia?
Por onde andam as fadas
Que visitaram minha infância?
O que fizeram com o Rei?

Não me peça uma segunda chance,
A linha que nos separa é tênue
Mas não podemos ver – Escurece.
Um calor paira sobre a terra.

Sinto o frio dos fantasmas
Que rondam meus sonhos,
Meus olhos choram –  Gotas
De escárnio e solidão.

                                              Jan.2013

Linhas Paralelas



Linhas paralelas entre eu e você
Tortas, inexatas – cansei-me de tudo e do todo
De vossas teorias e de vossos acordes piedosos.
Atrás do armário escondem-se crianças mudas,
Sorrisos amarelados, há um bule no fogão
Uma foto de Cristo desnudo e incapaz,
Apenas átomos que passeiam pelo espaço louco.
Da janela, penso ver elefantes que passam
Entre fileiras de abutres que dissecam o corpo,
Nu – Cristo em toda a sua glória perdida
Desenhando em um papel  seus temores.
Tudo é estranho, tudo cheira a enxofre e morte,
Todos estão tranqüilos, festejando a noite         
Ratos, formigas, fetos esbranquiçados  , uma garrafa
E restos de um outro dia , esquecidos no tempo.

                                                                Agosto/2012

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Neon



Raios, Luzes, Neon
Folha em branco, imagem
Sonhos, mariposas mortas.

O sol se foi
Para sempre, sempre.
Mesa vazia  – Velas.

Naves voam, o céu se fecha
Gotas de sangue
Em forma de lágrimas.

Segue o Rei
Riacho abaixo, canta
O canto do esquecimento.

Mãos se tocam,
Juntas tecem a sinfonia
Do eterno adeus.
                                            Jan.2013

terça-feira, 12 de março de 2013

Pitágoras




Pitágoras acordou cedo como de costume e preparou seu desjejum, como fazia sempre, depois de haver defecado na horta de sua mãe, que cultivava couve, pimenta, hortelã e uma alface que ele sempre achara estranha, pela sua coloração um tanto amarelada; Hortência, sua mãe, lhe dizia  que era uma alface vinda de outras terras, mas daí a acreditar que este era o motivo de sua cor era uma outra estória, até porque Pitágoras sabia o quanto de seu próprio estrume havia naquela terra.
Carregava dentro de si uma mágoa profunda de sua mãe, por ter lhe colocado um nome que sempre lhe causara constrangimentos, principalmente na escola, entre seus amiguinhos; Em uma pequena cidade do interior, onde a pequena população mal sabia ler e escrever, um nome como aquele causava muita estranheza em todos. – Pitágoras, meu filho, foi um discípulo de Jesus, dizia Hortênsia, e nessas ocasiões ficava perturbada por não se lembrar direito de onde tinha vindo tal idéia. Teria sido de seu marido? ‘Deus o tenha’, pensava Hortênsia. O pobre homem morrera cedo, um dia antes de completar 38 anos. Naquela manhã Nicanor preparou a marmita que levaria para o campo, era época da colheita do café e os patrões estavam esperançosos em conseguir uma safra boa, ‘haveriam de conseguir comprar um trator novo e guardar um dinheirinho no banco’, diziam entre si marido e mulher toda noite antes de dormir. À tarde vieram avisar que Nicanor tinha sido picado por uma cascavel e morrera. Teria o nome sido idéia dele? Tornou a pensar Hortênsia. Pitágoras por sua vez não conseguia acreditar em sua mãe, pois  nunca tinha escutado o Padre citar o seu nome na missa, além de que, seu vizinho Benedito, o ‘Bentinho’ como o conheciam, várias vezes havia lhe dito que aquilo não passava de invenção de  sua mãe.’Hortênsia vive imaginando estória’, dizia Bentinho.
 E naquela tarde tudo ocorrera rápido demais. – Pitágoras! Ouviu sua mãe chamar e quando entrou em casa, encontrou-a caída no chão da cozinha. No fogão uma panela de pressão chiava e exalava  um cheiro de feijão com toicinho, o velho gato amarelo olhou para ele quando entrou, se esticou todo e  voltou a dormir, ao longe se ouvia o cacarejar  das galinhas e no abacateiro dos fundos do quintal um pássaro com penugem amarelada, emitia leves trinados. Sua mãe era hipertensa, mas Dr. Timóteo, o médico da vila, receitava-lhe sempre pírulas para dormir, achando que era um problema de nervos ou  mais um caso de velhice mal aceita. “Quem sabe os dois”, dizia o doutor para sua mãe, nas vezes que vinha visitá-la. Dr. Timóteo não era muito velho, mas já tinha os cabelos ralos e uma cabeça pequena em comparação com o seu corpo gordo e pesado. Usava um chapéu de palha, que deixava seu grande nariz realçado no meio de um rosto rosado e com rugas abaixo dos olhos. Usava óculos quando queria ler alguma coisa, fumava um cachimbo que Pitágoras achava fedorento e sempre acabava ficando  para o almoço.
Hortência veio a falecer no mesmo dia, deixando-o órfão, com as parcas economias dela, que representavam privações e sacrifícios, muita fadiga e trabalho.As pessoas diziam, ‘pobre Pitágoras, Coitado do Pitágoras’, ‘O que fazer com Pitágoras?’ E Pitágoras, assim que se acabou o pouco que deixara sua mãe, teve que se virar com os dízimos dos vizinhos, que matemática alguma explica como conseguiu.
Dr. Timóteo segue ainda medicando laxantes, pírulas e ventosas. Seu diploma já amarelado permanece  na parece mofada de sua casa vazia e sem vida                                                                                            
                                                                                     Agosto.2009