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sábado, 25 de abril de 2015

Crônica - O Sol que brilha por aqui





Venho pensando cá com meus botões, sobre esta euforia que de uns tempos para cá tomou conta das cabeças dos jovens, que deixam seus lares para se aventurarem mundo afora; ouço esta manhã alguns pássaros que dão um viva ao belo dia, repleto de sol, as pessoas estão felizes, com seus rádios a todo volume, decerto as praias estão lotadas, com famílias bebericando refrigerantes, crianças deixando aflorar  a liberdade que anseiam sempre, enquanto podem ser crianças.
Ouvindo agora Jean Luc Ponty, esta alma magnífica, nascida em terras Francesas, a mesma terra que nos doou Kardec; Este músico que encheu meus ouvidos de paz e que levou-me a viagens extraordinárias lá pelo final dos anos 70, com seu violino mágico, “dizendo sobre planetas, galáxias, amor, crianças, e moradas distantes, provavelmente”.
Então lembro-me de minhas aventuras, por praias do litoral norte, belíssimas e enigmáticas, pelas planícies do planalto central, pelas estradas desertas na época, pelos por de sóis lindíssimos que curtíamos em tardes melancólicas; Claro que sempre tive uma certa ânsia em ver de perto as pirâmides e alguns países do oriente, por onde passaram Cristo, Buda, Gandi, enfim...mas com o passar dos anos, minha alma foi se acalmando e aprendi que os melhores momentos são os que passamos com nossos amigos, filhos, e pessoas da família que nos são caros; Milhares de jovens se comunicam através de seus celulares ultra radioativos, ou pelos correios eletrônicos tão em voga hoje; atravessam fronteiras e cruzam países, com a mesma facilidade com que cruzávamos a balsa de Bertioga, em feriados prolongados; misturam um misto de solidão e euforia pelos Euros ganhos com muito sacrifício, encontram seres, que aprendem a amar e muitas vezes , acabam por lá ficando, casando-se, tendo filhos e os que deixaram para trás, são revistos através de fotos ou de tempos em tempos, quando de passagem por aqui.
Sentem na pele o inverno rigoroso,  adaptam-se a novas maneiras, a outras comidas, vivem o silencio e muitas vezes a aspereza de outros povos , amontoam milhares de fotos digitais, mandam beijos e lembranças, e nas noites frias e vazias, costumam chorar no silencio de seus quartos.
É a grande, voraz e inexata globalização, que leva nossos jovens , atraídos por ilusórias promessas de ganho e estabilidade, outras vezes para fugirem da violência que toma conta de nossas cidades.
Nesta manhã, enquanto rola o Jean Luc Ponty, o sol tenta entrar em meu quarto, cujas cortinas mantenho fechadas - por estar um tanto quanto deprimido ,  um pássaro solitário canta alegremente, saudando este dia lindíssimo; Me lembro então  daquelas praias, de meu corpo dourado e das matas exuberantes, penso nos que estão distantes e sumidos e chego à conclusão que o sol que brilha por aqui não é o mesmo sol que às vezes brilha por lá.
                                                                Abril.2006






terça-feira, 31 de maio de 2011

Crônica - Como me vinguei de Marilda




Eram onze horas, daquela sexta feira ensolarada, as pessoas alvoroçadas desfilando  emoções e preocupações do cotidiano de cada um.
A caminho de minha habitual sessão de fisioterapia, “que, aliás, não serve para nada, a não ser dar sobrevida às clínicas”, resolvo parar no salão de cabeleireiro da rua Augusta para marcar uma hora; Na cadeira em uso, estava uma mulher de seus 40 anos, gordinha, - para não dizer extremamente obesa -  tanto que ocupava a cadeira toda, mais os espaços nos vácuos laterais.
 Perguntei ao Cláudio, - o cabeleireiro, se tinha horário para as 12hs ou 12:30  e o mesmo disse-me que iria demorar um pouco, mas que, um pouco antes das 13hs daria.
Saí então do recinto, sem antes não dar uma espiadela naquele corpanzil estatelado na cadeira, com seus cabelos empastados de química; Eram 12:20 quando retornei ao salão e deparei com a dita cuja ainda sentada, em um ritual sem fim de tintura e sei lá mais o que.
Bem, resolvemos que às 14:30 seria melhor, pois o Cláudio não tinha cliente para aquele horário; Fui para casa, lanchei, fumei ½ cigarro, sobra da manhã, assisti uns trechos do noticiário desportivo, justamente quando mostrava o meu time que na véspera havia tomado de 6 do Curitiba e às 14:20  saí de casa e me dirigi ao salão, lá chegando exatamente às 14:30.
Acreditem! Lá estava a Deusa gorducha, esparramada e risonha com as pernas ligeiramente abertas, mostrando aquelas pelancas horrorosas ao fundo e com sua vasta cabeleira “ressecada” sendo manuseada com um secador em vias de dar um curto circuito e uma escova, em movimentos longos e intermináveis.
Fiquei ali sentado, ouvindo aquela conversa fiada, própria de salões, - festas, encontros, médicos, casamentos, enfim, ainda tendo que vez ou outra deparar pelo espelho, com os olhares sexy da gordinha, achando que eu, talvez, estivesse viajando em seu visual. – Só se fosse  um pesadelo, pensei!.
Finalmente, a sessão estava terminando, olhei no celular, 15:07hs; A gorducha, cujo nome era Marilda - acabara de descobrir -  colocou seus óculos para ver o resultado final, olhou para mim como que esperando uma confirmação,sendo que  em um esforço sobre humano , respondi com um olhar de ok!
Finalmente, sentei-me na cadeira, ainda morna pela longa hibernação da Marilda, e pedi para o Cláudio passar a máquina 2, para espanto do mesmo; Após 10 minutos estava indo para casa, meio que arrependido, mas por outro lado satisfeito, pois, de certa forma,  havia me vingado de Marilda.
                                                                          
                                                                     Junho.2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Crônica de minha juventude

Ainda ontem brincava de ser adolescente e confesso que não sabia da existência de tais criaturas. Para mim que, aos vinte e seis ainda era um dos tais, recordo-me então de quando tinha quatorze, quinze ou sei lá, dezoito..
Graças a Deus, não havia a disseminação do sexo e das drogas com tanta fúria, ou pelo menos se havia, era em uma escala infinitamente menor, "se bem que eu estava em uma escala ainda menor que a da época"; Sem globalização e sem maiores diversões a não ser um bailinho ou um bom jogo de ping pong com a turma do colégio, ou aquela garota que sempre deixa marcas para sempre e com a qual sonhamos e com a qual sonhei inúmeras noites e bastava ficar frente a frente com ela, para corar e nada dizer.
A primeira moto, que foi quase que a primeira de todo o bairro e a sensação de ir pro colégio montado naquele cavalo voador com os cabelos longos embaraçados e a maneira com que todos paravam para observar quando chegava e quando ia embora.
Pergunto-me se os adolescentes são outros, e digo a mim mesmo que não, que são os mesmos, crianças perdidas em preconceitos e medos, dúvidas e anseios, mas que infelizmente tem que se tornar gente madura, pois o sistema assim o quer; Começam a se tornar adultos já na infância, com a entrada prematura na escola, com a obrigação de serem os melhores, com o trabalho a que são obrigados desde cedo para fazer jus aos chavões: “Responsabilidade!, não ficar na rua!, ter o seu próprio dinheiro!”.
Além disto, os cursos que são inventados a cada segundo e que faz com que as pobres criaturas mal tenham tempo para uma pelada no campinho, (hoje apenas na forma de quadras, com raras exceções, nas periferias distantes).E o que vemos são jovens saindo pelas noites em baladas alucinadas, com carros e motos aos milhares, com drogas que rolam à solta e com pais que quando não separados, mal tem tempo para olhar para eles ou mesmo dar-lhes um abraço.
Eu também faço parte desse grupo dos  separados e confesso que dificilmente vejo meus filhos e pelo andar da carruagem sei de antemão que já devem ter se iniciado no mundo de drogas e sexo.”E a tv continua sendo a alavanca de toda esta estupidez”, juntamente com a globalização Americana, mais as centenas de faculdades que apenas distribuem diplomas a pequenas crianças indefesas que seriam mais felizes empinando pipa, jogando ping pong ou ajudando suas mães nos afazeres domésticos.
Pobre do pai ou da mãe que não tiver conhecido uma droga qualquer em seu tempo, pois pensará sempre que seu filho não faz parte deste contexto. Pensamento equivocado, pois todos fazem parte, sem exceção.Os de classe pobre da periferia, Os de classe média de bairros centralizados e também os de classe rica e abastada, com seus casarões e apartamentos imensos, por razões as mais variadas, quer seja  pelo vazio desta existência, pela falta de amor de seus familiares, pelas amizades contraídas nos colégios, situação financeira, situação global, apelo da mídia, modismo, etc.“Enganam-se os que pensam que criminosos perigosos são crias apenas da periferia”.
Como isto é apenas um breve comentário, vou terminar dizendo que só aqui neste condomínio onde moro, existem dezenas de “mães crianças”, que deixam seus filhos com as avós para dar seqüência na brincadeira de ser adolescente, enquanto a TV vomita imagens de apelo criminoso que incentivam mais e mais ao crime e ao sexo sem fronteiras.
Ouvindo George Harrison, e tomando minha cerveja predileta, confesso que apesar de não ter tido consciência de minha adolescência, sinto saudades das noites felizes de ping pong e bailinhos, de minha velha motocicleta e de minha desaparecida namorada que adorava deixar a moto na garagem para andar pelas ruas de mãos dadas, em noites de lua cheia.
                                                                                           Abril 2005


terça-feira, 29 de março de 2011

Memórias de Elias ou O enigma da Senhora Odete


Desde cedo aprendi em minha terra natal ,Santa Ana, que os senhores feudais cheiram a bode. Na escola primária, a minha professora " Odete “, de óculos enormes e cabelo amarrado em coque, repetia e fazia com que repetíssemos em voz alta a seguinte frase: - Bode, político e os feudais têm uma única diferença entre si! - a localização dos chifres! - Confesso que não entendia na época esta comparação e hoje a entendo menos ainda. Depois de alguns anos acabei encontrando-a novamente, eu agora cursando  o ginásio; Logo a reconheci, pelos óculos enormes e os mesmos cabelos amarrados em coque! – Olá Josias, – disse-me ela, sempre confundindo o meu nome que era e acho que continua sendo Elias; Após trocarmos rapidamente umas palavras, pois uns amigos me esperavam do outro lado da rua, fazendo uns sinais do tipo “ Olha só o Elias, de gracejos com a Tiazona!”, estava a me despedir quando a Odete me pegando de surpresa diz – Repita em voz alta, “bode, político e os feudais tem uma única diferença entre si! A localização dos chifres! Apesar de eu não ter mais nenhum vínculo escolar com a Senhora Odete, talvez por respeito, ou até por um pouco de medo, repeti a frase, o que me custou gozações pelo resto do ano.Encontrei a senhora Odete ainda no dia da colação do segundo grau, hoje chamado ensino médio; Acho que talvez ela lá estivesse a convite da direção da escola ou quem sabe acompanhando algum familiar; A verdade é que quando chegou a minha vez de receber o diploma, a senhora Odete acabou me reconhecendo e para meu espanto e também de todos os presentes, subiu ao palco, me abraçou e em seguida bradou: - “Bode, político e os feudais tem uma única diferença entre si! –A localização dos chifres! 
Enquanto a plateia caía na gargalhada, a senhora Odete olhava   para mim com os mesmos olhos de outrora e nem preciso lhes dizer que acabei repetindo a frase, debaixo de risos intermináveis de todos os presentes. Acabei me retirando rapidamente do recinto e fiquei sem sair de casa por um bom período . Dia desses, “eu já com meus quarenta e tantos anos”, estava descendo a ladeira General Carneiro, no centro de São Paulo ,onde tinha ido comprar um tênis de marca, falsificado, em uma daquelas bancas de camelôs, que ao invés de nota fiscal lhe dão um cartão sem endereço fixo e um telefone celular para contato, quando eis que vejo subindo em direção contrária “a senhora Odete”, com seu velho coque amarrado no alto da cabeça, visivelmente acabada e envelhecida, caminhando com muita dificuldade, absorta no mundo da lua, ou sei lá, talvez no mundo dos espíritos, quando me olha de relance e me reconhece. –Como pôde me reconhecer após tantos anos? - pergunto-me; “Acho que pelo mesmo motivo de eu a ter reconhecido também”. Estendeu-me a mão gélida e enrugada, desta vez sem o abraço de sempre, me olhou nos olhos e pasmem, recitou a velha frase, lenta e pausadamente, agora em um tom que nem eu consegui ouvir direito; Olhou-me nos olhos, como que ditando a mesma ordem de outrora e, após alguns segundos, como  eu nada dissesse, continuou a sua caminhada, visivelmente abatida e triste com a minha reação; Percebi naquele momento  que não havia mais vínculo algum entre eu e a senhora Odete, comprei meu tênis que acabou descolando por inteiro após 28 dias e que não consegui trocar, pois não mais encontrei o vendedor. Passados alguns meses  do ocorrido, vejo estampado em um jornal sensacionalista a foto da Senhora Odete com a seguinte notícia: - “Vóvó octogenária encontrada morta em uma praça, com requintes de crueldade e ao lado do corpo uma cabeça de bode e a seguinte frase: -“Vá com seu bode, que nós prosseguimos adiante”. A polícia não entendeu a mensagem, ninguém entendeu a mensagem, apenas eu consegui decifrá-la, “em parte”, mas confesso que fico acordado noites inteiras tentando achar a diferença entre bode, político e feudais.
                                                                           Março.11

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Adoro túneis


Esta manhã estava indo para o centro da cidade em um confortável ônibus, desses que andam pela cidade, graças à coragem da Marta, quando ouço uma garotinha de uns cinco anos dizer para a mãe, que pouca atenção lhe deu, absorta que estava em trocar ideias com o marido. – "que pena que o túnel acabou!, queria passar de novo.- Amo túneis! – a coisa que mais amo na minha vida é túnel!"
Aquilo me chamou a atenção para um fato já por mim esquecido, que me ocorria também quando em idade tenra.
Desde pequeno me maravilhava por eles, e quando ia de bonde para o bairro de Pinheiros com meu saudoso Pai, passava pelo túnel nove de julho. Bárbaro!
Não sei se pelo meu tamanho pequeno, eu achava aquilo fantástico, mas, convenhamos, é de se admirar o homem fazer um túnel, não sendo tatu, minhoca nem formiga.
Vejam só quão maravilhosa é a matemática, através dos cálculos de uma obra de  engenharia,no posicionamento de astros e estrelas, nas maravilhosas notas musicais...
Quando meu pai me levava para aquele bairro distante, eu sempre lhe dizia: -Nós vamos de bonde? – quero passar pelo túnel!!
O tempo parou em um ciclo de hora intangível, pairamos por aqui por enquanto, todos absortos em pequenas nulidades, somos tolos!
Mas apesar de nossa tolice, continuo a amar os túneis. Acostumado ao túnel lindo e imenso da via Anchieta, lembro-me da minha surpresa da  primeira vez que me deparei com o túnel da Imigrantes! Nossa! Pensei – como foi que o homem conseguiu chegar a isso?
Cheguei a ficar com falta de ar, tamanha a demora da travessia....acho que sou meio claustofóbico. 
Fico me imaginando uma formiga...quantos caminhos escuros, quantas curvas, quantas raízes e predadores de toda a espécie. Chego a ter pena delas, pobrezinhas.
E as minhocas? Bárbaro, navegando em linhas curvas, retilíneas, oblíquas, traçando retas, quadrados, criando ângulos de todos os graus. E tudo em nome do prazer e da diversão.
Sinto-me triste quando vejo pescadores carregando minhocas no cesto de pesca, ainda vivas! E elas, com um restinho de esperança de que o homem de chapéu engraçado as liberte!
Deve ser ruim pacas virar comida de peixe. Ainda mais quando por perto de seu habitat não existem  peixes!!
Mas apesar de tudo adoro túneis e adoraria muito ver um de meus filhos como um grande engenheiro, construindo túneis, ainda que em nome do pseudo-progresso!
Como deve ser lindo o túnel da via Láctea! Quantas curvas, quantas cores, quanta vida!!
Sei que passei por inúmeros túneis, na rodovia Castelo Branco, na descida de serra para Curitiba,em linhas férreas, túnel Airton Senna, túnel Maluf, e sei lá quantos mais.
Não sei se meu pai está ciente ou não destas maravilhas construídas pelo homem moderno, nem sei se as aprovaria, mas o que sei é que continuo adorando túneis, sejam de que tamanho forem e  que grau de luminosidade gerem.
Acho que como a garotinha, também posso dizer – Amo Túneis!
                                                                               Dez/2006

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Das palavras



Escrevo hoje da mesma maneira como escrevia em um passado distante, - quero dizer, as palavras são outras, mas o sentido que lhes dou é o mesmo; Me dirão talvez – Qual o sentido exacto das palavras? – direi então que mal posso comunicar-me comigo mesmo, dizer o que minha alma anseia - ou será ela que dirá algo a mim, pobre mortal?
Escrever, estranho modo de se tentar dizer alguma coisa, mas talvez se consiga chegar um pouco perto da sutileza e da magia  da música e do que ela  transmite aos seus ouvintes, desde que haja algo de espiritual em seus acordes, digo! Mas não consigo vos falar através da música, então vou dissertando através das palavras escritas, ou ao menos tentando acalmar esta criatura indomável que habita em mim.  Enquanto escrevo nesta noite calma de verão, ouço as vozes de meus antepassados, vejo seus vultos que passeiam pelo meu quarto e dou-lhes as boas vindas do mundo dos espíritos; Em breve também farei parte do lar distante das imagens e dos sonhos eternos.
 -Acaricia minha face, querida mãe e diz-me de quando eras  jovem e se encantava com os passeios de domingo, em dias quentes de verão, como estes de agora;-      Conta-me novamente as estórias que me narrava para que minha alma possa entender um pouco sobre o amor.

- mas me dirão: - Qual o sentido exacto destas palavras?  - Direi-lhes então que não importa agora o sentido, pois justo neste momento sinto a brisa leve e morna do mundo invisível que me diz boa noite!.
                                         Fev.11

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

UMA NOITE DE SÁBADO

Bons dias aqueles, em que soltava papagaios e brindava o fim do dia com o café que minha saudosa mãe preparava todas as tardes.
Havia passarinhos de muitas espécies e de muitas côres, - que alguns mal avisados ainda tentavam capturar. Ruas de terra, como era bom...Andar descalço e poder contemplar a água da chuva, que corria festiva pelas beiradas sem guias daquelas ruas, perdidas no tempo!.E os vaga-lumes que enfeitavam as noites lindas de verão, hoje praticamente extintos nas grandes metrópoles.
O ar devia ser tão bom, - digo devia, pois hoje sei o que é sentir o pesado cheiro de gazes poluentes,misturados ao odor que sobe dos bueiros entupidos e sujos desta grande metrópole!. Mas imagine só se um menino em tenra idade como eu, iria se preocupar em saber se o ar era puro, - e é claro que era. Não me lembro de ter contraído nenhuma doença mais grave do que uma gripe ou resfriado, não havia rinites alérgicas, doenças respiratórias, viroses, dengue  e tantas outras doenças que hoje nos assustam, graças ao que fazemos com o meio ambiente em que vivemos.
Ainda a pouco fui ao supermercado, noite de sábado! Muita gente e um consumo que me fez verter uma lágrima tímida em meio à multidão que feliz e festiva, enchia seus carrinhos e aglomerava-se nos locais de doces, salgados, assados....Tudo uma grande festa!
Parei em frente aos “sonhos” e fiz menção de pedir um, mas vendo aquelas embalagens plásticas que a atendente “sem qualquer sentimento de culpa”, usava para atender aos consumidores, sendo que para cada quantidade, lá ia ela e apanhava uma embalagem brilhante e límpida para guardá-los, - Isto por tantas vezes que perdi o desejo de levá-los.(confesso que tive vontade, mas achei melhor não ter que, à custa de um prazer momentâneo e fugaz, abandonar aquela embalagem em meu cesto de recicláveis. Consegui dizer não e senti-me vitorioso, pelo menos naquela hora.
De volta para casa, cruzei bares em ritmo de festa, bebidas, petiscos, fumaça subindo aos céus, vinda das motos coloridas e carrões enormes dirigidos por pessoas apressadas e perdidas em meio à confusão de um sábado louco e descomedido.
Tenho a sensação, para não dizer “certeza”, que nós seres humanos chegamos ao limite considerado suportável, e que o nosso planeta está em vias de tomar as rédeas do processo que gera a vida e o amor.
Quantos de nós pereceremos pelas catástrofes que hão de vir, em qualquer hora destas, pois não se pode imaginar que uma terra que é sugada de seu sangue      - chamado petróleo - , de suas energias - chamadas florestas  e minérios - , de sua vida - chamada água -, possa ficar à mercê de nós, tão pequeninos! É de se esperar alguma reação, em pró de uma sequência cósmica que não pode ser revertida, em pró de tantas vidas que aqui vieram habitar, em pró do Amor!
Sinto saudades da minha infância, dos papagaios e das chuvas torrenciais que caiam e que faziam minha querida mãe acender ervas benzidas nos dias em que trovoes e raios despencavam em uma musicalidade linda, que eu adorava.
Hoje virou moda se falar em meio ambiente; Mas é estranho como, paralelamente a tudo isto, continuam os anúncios de cervejas com suas latinhas de alumínio, de carros cada vez mais velozes e modernos, de celulares de última moda, com suas baterias descartáveis, com empresas apelando para o  “falem à vontade”, e que se dane o mundo em que vivemos!  Estranho como uma minoria “em que eu me incluo”, recicla seu lixo, como se isto fosse a mais nobre ação do momento, e se esquece que não basta apenas reciclar,  - poderíamos evitar ao máximo o uso de tais produtos ou mesmo não usar! ..E do outro lado, a grande maioria, mais de 95% ainda consome desenfreadamente, joga seus restos aleatoriamente, como se esta ação diária fosse a coisa mais normal do mundo;  Estranho como os canais de comunicação que detém o poder sobre grande parte da população , continuam a veicular anúncios sobre refrigerantes e cervejas,com suas latinhas coloridas,produtos de consumo inúteis em caixinhas e potinhos descartáveis novos modelos de celulares, enfim... A ambição e a insensibilidade falam mais alto nestas horas.
....E neste exato instante em que escrevo sobre meio ambiente, e coisas que tais, sinto-me patético e um tanto quanto culpado também; Enquanto revejo minha infância, e vos falo de chuvas abundantes, de céus estrelados, de vaga-lumes e papagaios, de tardes quentes e alegres, cá estou eu a bebericar uma cerveja de “latinha”, teclando em meu  “computador” e tendo guardado um pequeno estoque de sacolinhas  de supermercados.
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                                                                                                       jul.2006