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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A última ceia de Papai Noel





 Tarde de inverno –
Papai Noel toma seu banho em uma banheira, com a ajuda de seu fiel amigo, o Duende, o último da linhagem dos Duendes que lhe esfrega as costas; Tem as barbas tão brancas quanto as do Papai Noel.
Na sua humilde casa pré-fabricada, um velho baú, um fogão à lenha, uma pequena pia e apetrechos de higiene.
Pendurada em um cabide, a sua velha roupa vermelha, desgastada pelo tempo e pelo uso; Este ano não haverá distribuição de presentes, ele está velho demais, cansado demais...
Suas velhas renas estão assando no forno; Será a última ceia de papai Noel e seu fiel Duende.
Milhares e milhares de crianças estarão tristes e decepcionadas, mas Papai Noel está velho e doente; Ele sabe que morrerá muito em breve e teme pela sorte do Duende.
                                                                      Dez.2014

terça-feira, 12 de março de 2013

Pitágoras




Pitágoras acordou cedo como de costume e preparou seu desjejum, como fazia sempre, depois de haver defecado na horta de sua mãe, que cultivava couve, pimenta, hortelã e uma alface que ele sempre achara estranha, pela sua coloração um tanto amarelada; Hortência, sua mãe, lhe dizia  que era uma alface vinda de outras terras, mas daí a acreditar que este era o motivo de sua cor era uma outra estória, até porque Pitágoras sabia o quanto de seu próprio estrume havia naquela terra.
Carregava dentro de si uma mágoa profunda de sua mãe, por ter lhe colocado um nome que sempre lhe causara constrangimentos, principalmente na escola, entre seus amiguinhos; Em uma pequena cidade do interior, onde a pequena população mal sabia ler e escrever, um nome como aquele causava muita estranheza em todos. – Pitágoras, meu filho, foi um discípulo de Jesus, dizia Hortênsia, e nessas ocasiões ficava perturbada por não se lembrar direito de onde tinha vindo tal idéia. Teria sido de seu marido? ‘Deus o tenha’, pensava Hortênsia. O pobre homem morrera cedo, um dia antes de completar 38 anos. Naquela manhã Nicanor preparou a marmita que levaria para o campo, era época da colheita do café e os patrões estavam esperançosos em conseguir uma safra boa, ‘haveriam de conseguir comprar um trator novo e guardar um dinheirinho no banco’, diziam entre si marido e mulher toda noite antes de dormir. À tarde vieram avisar que Nicanor tinha sido picado por uma cascavel e morrera. Teria o nome sido idéia dele? Tornou a pensar Hortênsia. Pitágoras por sua vez não conseguia acreditar em sua mãe, pois  nunca tinha escutado o Padre citar o seu nome na missa, além de que, seu vizinho Benedito, o ‘Bentinho’ como o conheciam, várias vezes havia lhe dito que aquilo não passava de invenção de  sua mãe.’Hortênsia vive imaginando estória’, dizia Bentinho.
 E naquela tarde tudo ocorrera rápido demais. – Pitágoras! Ouviu sua mãe chamar e quando entrou em casa, encontrou-a caída no chão da cozinha. No fogão uma panela de pressão chiava e exalava  um cheiro de feijão com toicinho, o velho gato amarelo olhou para ele quando entrou, se esticou todo e  voltou a dormir, ao longe se ouvia o cacarejar  das galinhas e no abacateiro dos fundos do quintal um pássaro com penugem amarelada, emitia leves trinados. Sua mãe era hipertensa, mas Dr. Timóteo, o médico da vila, receitava-lhe sempre pírulas para dormir, achando que era um problema de nervos ou  mais um caso de velhice mal aceita. “Quem sabe os dois”, dizia o doutor para sua mãe, nas vezes que vinha visitá-la. Dr. Timóteo não era muito velho, mas já tinha os cabelos ralos e uma cabeça pequena em comparação com o seu corpo gordo e pesado. Usava um chapéu de palha, que deixava seu grande nariz realçado no meio de um rosto rosado e com rugas abaixo dos olhos. Usava óculos quando queria ler alguma coisa, fumava um cachimbo que Pitágoras achava fedorento e sempre acabava ficando  para o almoço.
Hortência veio a falecer no mesmo dia, deixando-o órfão, com as parcas economias dela, que representavam privações e sacrifícios, muita fadiga e trabalho.As pessoas diziam, ‘pobre Pitágoras, Coitado do Pitágoras’, ‘O que fazer com Pitágoras?’ E Pitágoras, assim que se acabou o pouco que deixara sua mãe, teve que se virar com os dízimos dos vizinhos, que matemática alguma explica como conseguiu.
Dr. Timóteo segue ainda medicando laxantes, pírulas e ventosas. Seu diploma já amarelado permanece  na parece mofada de sua casa vazia e sem vida                                                                                            
                                                                                     Agosto.2009

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O relógio



O relógio de parede anunciou 3  horas, com o velho passarinho de madeira, arrasado por cupins e pelo tempo, movendo-se lentamente portinhola afora, sem emitir, porém, o som típico dos cucos de madeira. Willian lembrou-se daquela manhã cinzenta na praça central da cidade, onde iria pedir em casamento aquela que seria mais tarde sua esposa. "Fazia frio, crianças agasalhadas brincavam pela grama ressecada, um velho senhor tocava uma gaita em dois ou três tons repetitivos, um balão vermelho e branco passou voando por ele, indo enroscar-se em uma árvore, de onde alguns passarinhos ensaiavam um tímido canto".
"Horas antes, tomara um banho, - ainda podia sentir o perfume do sabonete no ar - pusera o seu velho jeans já um tanto desbotado nos joelhos e na parte de trás, aquela camiseta estampando um desenho surreal, com silhuetas seminuas, arco-íris, pássaros com asas em forma de violões e seios e um rosto  maior com longas barbas e com a boca escancarada, de onde saiam notas musicais e flores".
Quanto tempo havia passado e agora, sentado na fila do meio, na cadeira do meio, no meio do cinema , enquanto aguardava o início do filme, tudo lhe veio à mente, tão nítido, tão calmas e reais as imagens, vagou os olhos para as poucas pessoas nas filas à sua frente, no momento em que a senhorita da segunda fila, à direita de um homem com ares de importante, óculos multifocais e um terno preto impecavelmente amassado, levantou-se e caminhou em direção à saída, olhando de soslaio para a grande tela empoeirada, de onde bailava o cuco, impávido e triste.
                                                            Fev.2013

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Café da manhã



Certa manhã um pernilongo cochilava sobre as rendas de uma cortina amarela, com flores enormes, de um quarto luxuoso com mobília do mais fino gosto. Um sol tímido despontava por entre as folhas de um enorme abacateiro, plantado talvez de propósito defronte ao quarto, na época em que a enorme casa fora construída; O idealizador do projeto, do plantio do jardim e do pomar, já descansava no cemitério da cidade, e era pouco lembrado, desde a sua partida. Em seu túmulo havia uma inscrição, que lembrava um poema de José de Alencar, um busto de Cristo em seu derradeiro sofrimento, já um tanto gasto pelo tempo e algumas luzes coloridas, já queimadas há anos, que foram colocadas ali a mando do próprio falecido, quando em vida e que outrora acendiam todo mês de dezembro, dando um certo ar festivo ao cemitério, talvez para lembrar aos que  já haviam partido, que era natal!
Da cozinha, vinha um cheiro delicioso de café, um som de chuveiro no andar de cima, uma TV ligada e a empregada terminando de por a mesa.
O inverno se fora, despontava a primavera, tímidos raios de sol adentravam agora pelas frestas das janelas semi-abertas.
O pernilongo continuava imóvel em seu cochilo, sobre a cortina.
                                                                                  Fev.2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Velho Casarão, ratos, pastores





Em um sótão abandonado de um velho casarão estilo colonial, vivia um rato cujo nome era Oscar; Pelos finos, brilhantes, olhos vívidos e uma boca pequena enfeitada por lindos bigodes.
Oscar saia todas as noites para procurar seu alimento e também para tomar a brisa noturna, olhar o céu e meditar sobre sua própria existência.
Próximo dali, uma família fazia sua ceia habitual, uma mesa repleta das mais variadas guloseimas; Oscar sabia que o casarão em que vivia em breve seria demolido e que teria dificuldades em conseguir nova morada... sentia saudades de seus pais, mortos pela ingestão de iscas, colocadas propositadamente próximo de onde moravam, por aqueles gigantes de roupas escuras, com suas botas pesadas e cheirando a morte.
Restaram ele e mais nove irmãos, seis esmagados pela botina do homem gordo e suado, dois afogados na enorme bacia branca do banheiro do casarão e “Nicolas”, o último, e o mais franzino de todos, servira de alimento a um velho gato cinza que, volta e meia por ali aparecia.
Era época de natal, luzes eram colocadas nas grades e nas pobres das árvores dos enormes edifícios; Oscar ficava encantado com tantas luzes e com o imenso colorido, piscava os pequenos olhinhos e ficava imóvel por um longo tempo, observando os carros, as pessoas apressadas, faróis, vozes, luzes!!!
Jamais compreenderia o porque de tantas luzinhas coloridas piscando, o porque de não deixarem as árvores dormirem em paz....
“Aleluia!” gritou o pastor, e seus fiéis em coro repetiram “Aleluia Senhor!”
A igreja estava cheia naquela noite, toda sexta feira era assim, jovens, velhos, crianças compareciam em peso para o louvor da noite e para ouvirem o sermão do pastor Jesivaldo.
Naquela noite, Jesivaldo falou sobre a mulher adúltera, do casamento, da união estável, de Jesus e sua célebre frase “Que atirem a primeira pedra”. Muitos ouviam atentamente, principalmente os que sentavam mais à frente.
Lá no fundo, cochichos, cochilos, bocejos, crianças cansadas e resmungonas, um verdadeiro embate entre Deus e o Capeta.
Em breve as máquinas dariam início à demolição do velho casarão.
                                                                                               Fev.2013                                                  

sexta-feira, 2 de março de 2012

O Burrico e os apóstolos na Nona Dimensão

Certa manhã, um burrico andava por uma campina, repleta de flores, onde beija-flores recolhiam o néctar sob a luz de um sol que teimava em brilhar e brilhar;
De vez em quando o burrico parava, cheirando algumas flores, extasiado; Mexia  sua cauda sob o olhar atento de   
formigas que discutiam sobre como começar uma nova escavação subterrânea.
No outro lado do mundo, um anjo permanecia imóvel, como que querendo entender o porque da presença de anjos em um espaço cósmico quase imperceptível até para os próprios anjos; uma bolha cristalina pairava entre os dois mundos, repleta de pensamentos e equações ainda não reconhecidas, - do outro  lado do hemisfério norte cá na terra,tinha-se a impressão de serem parcas as possibilidades de continuidade de vida, os úteros prenhes aguardavam o momento da fecundação – É tudo tão estranho neste momento, pensou alguém - .
Vultos preenchiam a imaginação de seres vivos, rosas desabrochavam  por si próprias, amarelas, brancas, rosas, vermelhas, junto a tulipas, girassóis , jasmins......enormes pessegueiros se entreolhavam, suas lágrimas escorriam em forma de seiva, abundante, uma tristeza Universal se erguia agora.
...O burrico continuava seu caminho, sem saber ao certo quais eram as horas naquele dia claro, vagava sem direção e deixava que seus passos o levassem a qualquer lugar, talvez ao caminho de um mar infinito de flores, pássaros e jasmins;
Ainda é cedo aqui nesta cidade; Uma mulher recém casada, prepara o desjejum, absorta em seus pensamentos, seu útero preparado para nova cria. Crê ainda em Jesus e seus apóstolos desconhecidos -  a extrema unção de seu próprio ser está preparada e uma mesa farta de  alimentos em decomposição será posta.
.........Talves o burrico seja a forma última de um Deus que, cansado de tanta lisonja, tenha decidido caminhar a esmo por uma campina, repleta de flores, onde beija-flores teimam em recolher o néctar, sob a luz de um sol que teima em brilhar, brilhar, brilhar...

                                                           Março 2012

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Um debate religioso

Dois senhores conversavam, dizendo sobre os mistérios da vida.
--Sou Ateu! - disse o primeiro.
--Sou Judeu! - resmungou o segundo.
Uma leve brisa sacudiu o ar pesado, era verão a terminar, lá pelas bandas do Cairo.
De repente outra pessoa apareceu e juntou-se aos dois senhores, recomeçando o debate sobre os mistérios da vida.
--Sou Ateu! - disse o primeiro.
--Sou Judeu! - resmungou o segundo.
--Jesus de Nazaré é que tinha razão! – disse o terceiro.
A noite então chegou, trazendo um negror pálido e um silêncio profundo, junto àquelas colinas distantes...
Três senhores conversavam o mesmo assunto, debalde.
--Sou Ateu! - Gritou o primeiro.
--Sou Judeu! – Disse o segundo.
--Jesus de Nazaré é quem tinha razão! - Resmungou o terceiro...
Depois vieram o quarto, o quinto e o sexto; Homens e mulheres, cada qual dando sua opinião.
Diz uma lenda que hoje, são por volta de um bilhão.
                                                                                  Mai.11

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

PAPAI NOEL FICOU NA TERRA





Ele parecia não me reconhecer, apesar de eu insistir para que me desse um presente. - Gostaria muito de olhar em seu grande saco e verificar se realmente havia presentes para todas as crianças da face da terra.
Finalmente aquele homem embriagado e barrigudo, largou  o cigarro em cima de uma rena, que gritou de dôr , e disse-me: - vê se para de me encher o saco!!
- Crianças são tantas e eu não possuo tantos presentes. Só entrego para aquelas, cujos pais compraram antecipadamente!
Então eu desliguei a minha tv e fui dormir com um sentimento estranho. Naquela noite sonhei muito com aquele barrigudo sem vergonha. No sonho, ele me dizia palavras indecorosas e abria sua braguilha para que eu visse aquela coisa mole e nojenta..
Naquela manhã, tomei o meu café matinal, com jaca e água de coco e a morte apareceu em meu humilde lar e levou-me sem uma palavra sequer.
- Acho que o papai Noel se ferrou, pois ficou na terra com seu saco indecoroso e sua grande barriga oca!!
                                        Achei este conto estúpido escrito na véspera do natal de 2006..